quarta-feira, 13 de abril de 2011

O circo do Realengo



Laura Alves e Marianne Fonseca

Vamos analisar através da reportagem exibida no dia 10 de abril pelo “Fantástico”, que fez uma reconstituição do massacre, a exposição exagerada das crianças, a repetição de imagens chocantes e a falta de uma opinião especializada no assunto.

Sete de abril de 2011, o café da manhã e o despertar de várias camadas sociais brasileiras foi guiado pela notícia de que o atirador Wellington Menezes de Oliveira havia invadido a escola Tasso da Silveira, no Realengo, Rio de Janeiro e disparado sem piedade contra 12 alunos. A partir deste momento estava montado o circo midiático.

A origem humilde da maioria dos alunos envolvidos no acontecimento, o desamparo e a falta de acompanhamento adequado fez com que esses jovens se tornassem protagonistas da nova novela da família brasileira. Eles eram as fontes mais viáveis e próximas do que havia ocorrido no interior da escola. Crianças colocadas em situação de conflito como esta, que foi comparada a um estado de pós-guerra, devem ser poupadas do alarde feito pela imprensa e tal conclusão não deve vir de um psicólogo, mas de qualquer pessoa que se coloque em posição de respeito a outras.

A matéria exibida pelo “Fantástico” no domingo após o massacre sobrepôs qualquer limite à dignidade humana, os jovens recém-saídos de um grande trauma foram expostos em entrevistas compulsivas por informações diferentes das já levadas ao ar. Todos se chocaram ao ver o desastre e o sofrimento daquelas pessoas e até se colocaram na situação das famílias envolvidas, mas de forma menos ampla, não pensaram que na sua própria estrutura familiar ou de convívio próximo podem existir problemas igualmente graves aos que provavelmente levaram Wellington a cometer os assassinatos.

A comoção causada pelo caso aumentou ainda mais quando imagens do circuito interno da escola, misturadas a registros amadores de celular lotaram o noticiário com correria, pessoas escorregando em sangue, o corpo do Wellington na escadaria do colégio e um aluno baleado, agonizando no corredor, enquanto familiares, curiosos e policiais corriam pelo local em busca de corpos.

O enfoque dado pelo “Fantástico” ao caso fez com que as famílias brasileiras se unissem para repensar estatutos de desarmamento, o papel da escola e a questão da segurança pública, mas em momento algum ouviu-se dizer da estrutura familiar, de regras sociais, conduta moral, pequenas atitudes preconceituosas ou de falta de respeito ao próximo.

Os meios de comunicação, além de informar e denunciar, têm o dever de mostrar à população os fatores sociais que desencadearam o fato e o que devemos modificar na sociedade para que esse tipo de barbaridade não volte a acontecer. A mídia brasileira falhou ao não apontar especialistas que atingissem os pilares da nação, para repensar até que ponto nossa pequena atitude homofóbica, racista, excludente, não atingem em uma maior alçada o local em que convivemos.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Alarmantes ou alarmistas?

Eduardo Guimarães

O terremoto no Japão mexeu com a mídia nacional e internacional. É fato que as pessoas do mundo inteiro se interessavam em saber a real situação asiática. Mas será que essa necessidade imagética surgia por curiosidade ou pelo excesso delas na imprensa? Os brasileiros sentem muito mais a notícias que os japoneses, mas isso é cultura, lá as formas de lidar com um problema são diferentes.

A mídia brasileira cresceu em audiência durante a explosão, com o perdão da palavra, do desastre no Japão. De acordo com a colunista Keila Jimenez, o Jornal Nacional teve um aumento de 4 pontos de audiência, o Jornal da Record aumentou 2 e o Jornal da Band um ganho de 1,5 pontos de audiência. A imprensa nacional usa imagens chocantes, que correram o mundo. Uma tecnologia japonesa de gravação de vídeos e fotos que hoje serve apenas para o registro de uma tragédia. O terremoto e o tsunami perderam espaço para outro desastre, os perigos da energia nuclear.

Mas o enfoque da mídia está no caminho certo? Não estamos falando apenas de um país que teve reatores de uma usina nuclear expostos à radioatividade descontrolada, hoje falamos de elementos radioativos que acidentalmente foram lançados ao mar, podem chegar à qualquer lugar do mundo e a única preocupação é com os 20 funcionários que trabalham na usina?

Estamos falando da terceira maior economia mundial, que corre o risco de ficar sem alimento por causa da radiação. A mídia esqueceu que mais de 127 milhões de pessoas podem, literalmente, morrer de fome?! Em outra vertente, a terceira maior economia mundial está em crise, e como essa paralisação no setor industrial japonês influencia o restante do mundo? O dinheiro que circula por estes países podem criar uma Teoria do Caos na Economia Mundial? Não seria nada distante, pensar em uma possível quebra em determinadas bolsas de valores.

Claro que o espetáculo da natureza destruidora é algo que não pode passar desapercebido, mas o foco precisa ser outro. Quais as conseqüências à longo e médio prazo destes desastres? Como o Brasil poderá lidar com uma possível crise econômica mundial? O Japão pode ser suprido por outras formas de energias? Algumas perguntas são ignoradas pela maior parte da imprensa.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Dispositivo de resposta social aos meios

Conceito –
O processo que criamos trata de um dispositivo em forma de um centro de sensibilização crítica para processos históricos; um trabalho de construção de um imperativo crítico para leituras midiáticas que envolvem acontecimentos e fatos ao longo da história brasileira e mundial, e será desenvolvido com alunos do terceiro ano do ensino médio do Colégio Providência de Mariana.

Parâmetros de trabalho –
Para produzirmos uma reflexão crítica direcionada aos meios de comunicação vigentes, vamos fazer uso de parâmetros rígidos de análise e compreensão. Trataremos os acontecimentos históricos e a cobertura deles sob uma perspectiva que se sustentará por quatro pilares fundamentais, são eles: declaração universal dos direitos humanos, pertencimento político, cidadania, e responsabilidade social da comunicação e jornalismo. Julgamos esses critérios de análise relevantes para a construção de um olhar mais sensível e crítico, e necessários para uma abordagem consciente dos efeitos produzidos pelas coberturas midiáticas ineficientes ou por aquelas mais plurais e consistentes.

Etapas e processamento –
O centro pretende desenvolver atividades duas vezes ao mês com os alunos. O ponto de apoio aos trabalhos virá da associação com a disciplina de história; em cada encontro faremos dinâmicas para apresentar os fatos, e a cobertura desses pela mídia de modo geral. É dessa interação, desse diálogo, que passamos pelo dinamismo e tensionamento do processo comunicativo, avaliando e respondendo a ele. A partir da análise e da interpretação, vamos direcionar para observação através dos parâmetros estabelecidos, apontar erros, sugerir medidas, e então movimentar o ciclo de produção da notícia, veiculação, recepção, e resposta social portanto.

A resposta aos meios, e as análises que virão desse processo de sensibilização entram em um segundo momento de atividade do centro, que vai funcionar paralelamente aos encontros com os alunos. O blog vai atuar para medir os encontros, e também como uma plataforma crítica onde não só os alunos mas todos do centro – os estudantes de jornalismo e os professores envolvidos - vão enviar suas sugestões, seus textos críticos. Além disso, teremos o espaço para divulgar as etapas de trabalho, e os bastidores do encontro.

Relevância –
A intenção desse projeto é sensibilizar o olhar e a interpretação diante dos fatos importantes da história que são tratados pela mídia muitas vezes com negligência. Acreditamos que os alunos podem ser motivados pelos critérios que vamos utilizar e dessa forma, vão adotar posturas mais reflexivas, o que pode se estender para os pais, para a família, os amigos. É assim que incentivaremos maior pensamento crítico, mais consciência do poder dos leitores e telespectadores, e a partir daí responder de forma mais inteligente aos produtores das notícias e acontecimentos.